Saiba como foi a edição sob o tema “Futuros Possíveis”
O auditório do British Council foi, mais uma vez, palco do Festival Confluentes. A 4ª edição do evento aconteceu no dia 27 de setembro e, junto com a chegada da primavera, encheu a todos os presentes de esperança. Com o tema “Futuros Possíveis”, o festival reuniu nomes importantes da ciência, da tecnologia e do jornalismo para esperançar.
Esperançar, inclusive, foi o verbo usado por Inês Mindlin Lafer e Nicole Carnizelo, idealizadora e diretora executiva do Confluentes, respectivamente, na abertura. A tarde foi dedicada a imaginar qual futuro buscamos no atual cenário social e político, além de caminhos possíveis para torná-lo realidade em meio às novas tecnologias.

A primeira atração, apresentada ao público pela multicomunicadora Deh Bastos, mestre de cerimônias oficial do evento, foi Marcello Dantas. O curador e produtor cultural levou ao palco o mini-TED “Eduque seus filhos da mesma forma, sejam eles humanos ou não humanos”, que refletiu sobre como a inteligência artificial pode restabelecer narrativas do passado que foram negligenciadas e criar uma forma mais íntegra de existir no futuro.
“A IA é uma dessas criaturas que trouxemos ao mundo e que precisa viver não só de palavras ou instruções, mas de ações. Afinal, um filho não faz aquilo que você diz para ele fazer. Ele vai copiar o modelo de suas ações”, disse.
Otimismo e pés no chão
Após o painel de abertura, subiram ao palco Alessandra Orofino, economista, roteirista e produtora do documentário “Apocalipse nos Trópicos”; e Bruno Torturra, jornalista e fundador do Estúdio Fluxo. Os apresentadores do podcast “Calma Urgente” debateram sobre o fim do arbítrio com a inteligência artificial.

“Tenho uma resistência em aceitar a terminologia que essa indústria está colocando em si mesma: de que a inteligência é, pura e simplesmente, artificial. Isso cria uma certa miopia do que está em curso e nos leva a pensar o que significa ser humano no futuro”, refletiu Torturra.
Alessandra complementou: “A IA é, sim, disruptiva. Mas, se há ruptura, quem está desenhando o que vem depois? O problema não é a mudança em si, e sim o fato de que a capacidade de imaginar e implementar o futuro está concentrada nas mãos dos poucos que têm acesso ao poder”.
Para ambos, o ambiente midiático virou a nova esfera política e é preciso propor conversas democráticas que encontrem eco no algoritmo e não só acirrem as polaridades.
O caminho é democrático
Em seguida, a jornalista Beatriz Bulla mediou Aava Santiago, vereadora pelo PSDB em Goiânia, Talíria Petrone, deputada federal pelo PSOL no Rio de Janeiro, e Will Schmaltz, cofundador e presidente da Escola Comum, organização apoiada pelo Confluentes, que trabalha para formar jovens para a ação cívica democrática nas periferias.

No painel, que discutiu o futuro da política no Brasil, Talíria Petrone defendeu que a coletividade evidencia uma paixão que a política institucional vai destruindo aos poucos, o que inibe a construção de um futuro mais colaborativo. “Só com a mobilização social e o fortalecimento da democracia é que vamos conseguir fazer as transformações necessárias.”
Para Aava, o maior desafio na construção de um futuro democrático é ter um país governado por herdeiros. “Isso enrijece os abismos de pertencimento entre aquilo que a política institucional nos entrega daquilo que nós somos na vida real. Enquanto o poder político e econômico tem a cara de um homem branco que nasceu em berço de ouro, a pobreza continua sendo um retrato imediato desse contrastes”, pontuou.
Nesse sentido, Will Schmaltz acredita que incentivar a participação dos jovens no debate público é essencial para fortalecer a democracia. Ele destacou que, nas formações promovidas por sua equipe, é visível como o envolvimento político eleva a autoestima de jovens historicamente excluídos das instituições. “Precisamos fortalecer iniciativas que permitam que esses jovens se sintam capazes de influenciar os rumos do país”, afirmou.
Desigualdades como desafio
Ovacionado pelo público, o professor Hélio Santos, cofundador do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade e presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, apresentou um mini-TED onde tratou as raízes das desigualdades. Em sua fala, ele, que é referência nacional na luta pela equidade racial, nos lembrou o caminho pelo qual as desigualdades foram construídas.

“Não há nada mais relevante no Brasil do que diminuir as desigualdades e pensar em políticas efetivas para isso. Mas não dá para usar band-aid em fratura exposta. Se quiser desenvolver profundas desigualdades, basta tratar a todos igual. Portanto, a equidade é o mecanismo que vai poder materializar a igualdade através de medidas que tornem as oportunidades consistentemente iguais”, declarou.
Sobre política de cotas, disse: “Quando um sujeito tem uma oportunidade ele transcende a si mesmo”, arrancando aplausos e reforçando a urgência de investir em inclusão para construir futuros mais justos.
Após a potente participação, subiu ao palco Rogério Oliveira, especialista em inovação social e futuro do trabalho, que tem pesquisado como a inteligência artificial pode acelerar a transição para sociedades mais justas e sustentáveis. Em seu painel, Rogério refletiu se a IA pode ser uma ferramenta real de justiça social. Seria utopia?
Rogério apresentou startups que utilizam IA como ferramenta para endereçar problemas complexos de saúde, educação, pobreza, clima e saúde, trazendo um olhar mais esperançoso sobre a democratização da ciência e o uso da IA como chave para erradicar alguns dos mais graves problemas do nosso tempo.
Ciência da natureza
Não dá para falar de inteligência artificial, porém, sem falar sobre os impactos sociais, econômicos e políticos que as tecnologias digitais ocasionam, principalmente em meio a uma devastadora crise climática.
Com esse olhar, a jornalista Micheline Alves apresentou uma entrevista com Marcelo Gleiser, físico, astrônomo e um dos cientistas brasileiros mais reconhecidos no mundo. Ele, que é vencedor do Prêmio Templeton, se diz um explorador do desconhecido e amante da natureza. Valores que refletem essencialmente em sua forma de pesquisar e fazer ciência.

“A gente está desenvolvendo uma tecnologia que, no princípio e no marketing, poderia nos transformar de forma profunda. Mas é importante avaliar nossas escolhas morais para ver como é possível usar essas ferramentas”, disse. Provocado pela jornalista sobre “máquina não ter coração”, Marcelo enfatizou que não estamos lidando com inteligências, mas sim com algoritmos treináveis a partir de um repertório humano de informações.
“Existe um viés que é transferido para a máquina a partir do modo como nós a treinamos. Ou seja, mesmo as inteligências artificiais vão representar a luz e a sombra da humanidade. Por isso, não temos que ter medo das máquinas, temos que ter medo de gente.”
Esperança como destino
A jornalista Aline Midlej, âncora do Jornal das Dez,da Globonews, iniciou a última mesa da noite, ao lado de Alice Pataxó, comunicadora e ativista indígena; Tasso Azevedo, engenheiro florestal e coordenador do MapBiomas; e Yuri Salmona, diretor do Instituto Cerrados. O time jogou luz aos desafios e às incertezas da emergência climática, buscando a esperança como fio condutor.

Será que ainda dá para transformar a crise climática em caminhos de justiça ambiental? “A gente tem muitos motivos para pensar no futuro”, disse Alice. E completou: “Cheguei à conclusão de que todas as soluções partem da coletividade, porque sozinho a gente não constrói grandes coisas. Coletividade, inclusive, que permeou todas as conversas de hoje.”
Aliar as tecnologias aos saberes tradicionais é uma das chaves para ter mais esperança, segundo Alice. Para ela, ainda falta a sensibilidade de buscar soluções a partir de territórios tradicionais, como os indígenas.
Yuri, que trabalha pela preservação do cerrado, fez coro com a ativista e lembrou da importância de ouvir o povo da floresta: indígenas, quilombolas e ribeirinhos. “O Brasil repete o mesmo modelo de ocupação e produção desde 1500, mas a gente precisa deixar de ser colônia”, disse.
Tasso Azevedo, por sua vez, defendeu que temos muitos diagnósticos, e agora é a hora de partir para a ação. “Quanto mais tempo se gasta no planejamento, mais complicado fica de ajustar o rumo quando se começa a implementar as mudanças.”
Depois de tantas conversas inspiradoras, a atriz Isabela Mariotto, criadora do canal “A Vida de Tina”, encerrou a 4ª edição do Festival Confluentes trazendo o riso como ferramenta de reflexão. Ela recitou um texto do livro “Aos nossos amigos”, d’O Comitê Invisível, um coletivo anônimo de escritores e ativistas franceses, que traz uma frase certeira para seguir com esperança: “A nossa margem de ação é infinita e a vida nos estende a mão”.
Até o ano que vem!












